Gritando com as paredes: injúria e racismo institucional no futebol

Moussa Marega comemora um gol apontando para a sua pele (Foto: Divulgação – FC Porto)

No último dia 13 de setembro, Neymar, que joga pelo Paris Saint-Germain, foi chamado de “macaco” por um dos seus adversários em campo, em uma partida do Campeonato Francês de Futebol. O brasileiro reagiu, comunicando aos árbitros do jogo o que havia acontecido, mas a partida continuou. No final do jogo, foi expulso de campo, delatado pelo árbitro de vídeo (o VAR), por ter dado um tapa no mesmo jogador que o ofendeu. Neymar reiterou nas redes sociais a injúria racial que sofreu, gerando muitas reações de apoio e muitas de desconfiança. Seu time o apoiou e a equipe adversária negou o caso, dizendo que seu atleta não era racista. Depois de mais de quinze dias de análise, a Liga Francesa de Futebol absolveu os dois jogadores e encerrou o caso, alegando que não há provas convincentes. Uma leitura labial feita por especialistas no Brasil concluiu, sem muita dificuldade, que Neymar foi sim chamado de “mono”, macaco em espanhol.

Em fevereiro de 2020, o atacante malinês Moussa Marega, que atua pelo Porto, foi provocado com ofensas racistas pela torcida adversária cada vez que tocava na bola, em uma partida do Campeonato Português. Marega fez um gol, e das arquibancadas, além dos insultos, foram atirados objetos na sua direção, um deles uma cadeira do estádio. Ele comemorou apontando para a cor da sua pele e atirando a cadeira de volta na torcida, e foi punido pelo árbitro com cartão amarelo. As ofensas continuaram, e desesperado, Marega decidiu se retirar de campo, o que demorou mais de 3 minutos, porque seus colegas de time e adversários o seguravam, tentando impedí-lo, em vez de se juntarem a ele. A partida continuou normalmente, e a Federação Portuguesa aplicou uma multa ao clube adversário por três motivos: €10.087 por uso de sinalizadores, €7.140 pelas cadeiras jogadas no campo, e €714 pelas injúrias raciais – para eles, a menos grave das infrações.

Em novembro de 2019, durante uma partida pelo Campeonato Ucraniano de Futebol, o atacante brasileiro Taison, que jogava pelo Shakhtar Donetsk, foi ofendido com insultos racistas pela torcida adversária. Taison reagiu gesticulando e chutando a bola na direção dos torcedores, e foi expulso de campo pelo árbitro. Os jogadores do seu time e do time adversário o apoiaram, enquanto saía do campo chorando. Após um tempo parada, a partida seguiu normalmente, e Taison foi punido pela Federação Ucraniana com mais um jogo de suspensão. A equipe adversária foi penalizada com um jogo sem torcida e uma multa de R$ 90 mil reais, que é menos do que costuma ser a renda de um jogo.

Em agosto de 2014, o goleiro Aranha, que na época jogava pelo Santos, foi ofendido pela torcida adversária com insultos racistas durante jogo da Copa do Brasil. O goleiro ouviu os xingamentos atrás do seu gol durante o jogo todo, e em certo momento reagiu, se dirigindo ao árbitro para contar o que estava acontecendo. A partida ficou parada por um tempo com o árbitro e os jogadores confusos, sem saber o que fazer, e Aranha aflito tentando explicar a situação. As câmeras da transmissão captaram claramente as ofensas vindas dos torcedores no fundo do gol. A partida seguiu normalmente, e o árbitro sequer mencionou na súmula original do jogo o que havia acontecido. Só em um segundo momento fez um adendo, relatando a situação. Depois daquela partida, Aranha deu entrevistas duras e reiterou as ofensas que sofreu naquele e em outros momentos da carreira. Na época, o caso gerou muita repercussão, mas dividiu opiniões. Muitos consideravam que Aranha estava exagerando, e que ofensas desse tipo nos estádios são corriqueiras. A mobilização de quem o apoiou motivou um debate importante e cobrou uma punição dura ao clube, que foi penalizado com a eliminação da Copa do Brasil. Mas naquela altura, a equipe já tinha sido eliminada de qualquer forma porque perdeu o jogo em campo.

Os casos recorrentes de injúria racial nos jogos de futebol profissional por si só já são uma questão preocupante. Porém, a forma como a arbitragem, as federações e os tribunais esportivos — e em alguma medida também os clubes, a mídia e os próprios atletas — lidam com esses incidentes revela como o racismo no futebol é estrutural, e ainda mais grave e profundo que os casos individuais de ofensa. Mais que apontar culpados individuais — jogador x ou y, torcida a ou b —, é importante prestarmos atenção na forma como as entidades que controlam o futebol profissional se comportam institucionalmente nestes momentos e as narrativas que constroem em cima deles.

O esporte não é o único, mas é um dos muitos lugares onde o racismo está presente no mundo. Desde o tempo em que o futebol era um esporte de brancos e ricos, e os pretos eram proibidos de jogar, as questões raciais são fundamentais. Não estamos mais nessa época: os times hoje estão cheios de pessoas que não são brancas, mas isso não quer dizer que o racismo no futebol acabou. Ele continua existindo, só que as questões agora são outras, e talvez mais complexas. Estas questões têm inúmeras manifestações e dimensões. Vamos discutir aqui duas delas, diretamente relacionadas. 

Mais que apontar culpados individuais, é importante prestarmos atenção na forma como as entidades que controlam o futebol profissional se comportam institucionalmente nestes momentos e as narrativas que constroem em cima deles.

A primeira é o que acontece, dentro do campo, logo após uma injúria. Nos casos que citei, os desdobramentos foram muito parecidos: vítima aflita tenta se fazer ouvir e expressar a dimensão do desrespeito que acabou de sofrer, reagindo de forma naturalmente desesperada; os outros atletas, mesmo que apoiem ou contenham a vítima, continuam a partida depois de uma pequena pausa; federações conduzem longas análises e aplicam punições irrisórias para quem está diretamente envolvido; e árbitros e juízes, geralmente brancos, punem a vítima por sua reação, o que, pra mim, é a atitude mais perversa.

A segunda é a forma como esses casos são discutidos pelas entidades de comando, a dimensão que se dá a eles, e como ela afeta as ações que são tomadas dali pra frente. Essa questão está intimamente ligada à primeira e em ambas há a construção de narrativas. Elas são produzidas a partir de posicionamentos e falas dos próprios dirigentes, a partir das notas oficiais das entidades, e também podem ser lidas nas entrelinhas das ações institucionais.

A produção da narrativa pelas entidades nos casos de injúria racial nos estádios geralmente segue três caminhos. O racismo no futebol pode ser negado ou relativizado, como nas falas do dirigente da liga francesa sobre o episódio envolvendo Neymar, do dirigente do time português sobre Marega ou do Pelé sobre Aranha. Esse tipo de abordagem costuma aparecer em posicionamentos pessoais de alguns nomes importantes no comandos da entidades do futebol ou com voz ativa no esporte. Um olhar rápido pelos comentários nas notícias sobre esses episódios mostra como esse ponto de vista é também disseminado entre torcedores.

As instituições, em seus posicionamentos oficiais, costumam não agir assim. Elas reconhecem o racismo, mas não como estruturante. Seu tom de voz dá a entender que o racismo se restringe aos momentos de injúria racial, e os colocam como incidentes isolados e personificados. A partir daí, as federações tomam para si o comando das ações anti-racistas, restando aos atletas seguir um protocolo coreografado e bem comportado de uma campanha educativa. Um tipo de anti-racismo raso que agrada a publicidade, conserva as estruturas de poder e dá a impressão de algo está sendo feito, já que o recado é que o problema da discriminação racial está sempre no outro.

O repertório de ações possíveis contra o racismo de entidades como a FIFA ou as ligas e federações nacionais é muito limitado, e boa parte do debate público na grande mídia, quando cobra por ações, segue na mesma direção. Se o ponto de partida é individualizar o racismo e enxergá-lo como uma disfunção ou um desvio em um ambiente que geralmente funciona bem, é tolerante e respeitoso, o cardápio de ações que pode sair daí não consegue ser outro senão: primeiro, a punição individual para os torcedores, os atletas e talvez os clubes diretamente envolvidos, e depois, mais e mais campanhas educativas. E o racismo estrutural segue firme e forte. 

A FIFA até criou em 2019 um protocolo para os casos de injúria racial com três passos: paralisação do jogo e anúncio no sistema de som do estádio; retirada dos jogadores do gramado; e encerramento da partida. Um protocolo brando e insuficiente, como defende o ex-árbitro e comentarista Sandro Meira Ricci, e que na prática, não está sendo cumprido. Além disso, o árbitro de vídeo (VAR) não está autorizado a intervir nesses casos, como foi no episódio envolvendo o Neymar, e a federação demonstra muito pouca preocupação com o desprezo ao protocolo durante os jogos. Na prática, parece que o racismo é um assunto de menor importância para quem comanda o futebol.

A insensibilidade e incapacidade de ações efetivas das entidades tem então a ver com as posições e os espaços de poder no futebol.

Para começar a enxergar os porquês disso, a fala do Paulo César de Oliveira, ex-árbitro, hoje comentarista de arbitragem, um dos muito poucos pretos na grande mídia esportiva, é muito importante, comentando as punições aplicadas às vítimas de injúria racial: “As pessoas que ditam as regras e fazem os regulamentos são brancas, e os brancos dificilmente passam por situações como essas. Eles não sabem o que passa efetivamente na cabeça do Taison nem do jogador do Porto [Marega].” 

A insensibilidade e incapacidade de ações efetivas das entidades tem então a ver com as posições e os espaços de poder no futebol. Apesar de hoje ocuparem o lugar de jogadores, supostamente as estrelas do futebol, o que antes não era possível, e ainda que possam ganhar muito dinheiro nesse lugar, as posições de poder, decisão e fala no esporte profissional continuam sendo ocupadas por homens brancos, ricos e heterossexuais. Quem não é branco tem algum espaço, mas um espaço muito bem definido.

Um levantamento feito pelo site Superesportes no ano passado começou a mostrar o que é esse espaço definido, dentro dos clubes. Entre todos os times da Série A do Campeonato Brasileiro de 2019, havia apenas um técnico e dois dirigentes pretos, de um total de 100 treinadores e dirigentes. Os pretos estariam presentes se uma análise parecida fosse feita para as entidades que controlam o esporte, como as federações, ligas e tribunais esportivos, e também as posições de comando nos mercados bilionários de transferências, produtos, mídia e publicidade que giram em torno do futebol e ditam os seus rumos?

Como explica o Silvio Almeida, a ocupação desses lugares por pessoas pretas é importante, mas sozinha não é suficiente para enfrentar o racismo estrutural. Porém, os dados da desigualdade nos diferentes espaços do esporte ajudam a entender quem construiu e como foram construídas essas instituições, e porque elas operam e pensam a partir de lógicas racistas — ou no mínimo insuficientes para serem consideradas anti-racistas. 

Lado a lado com a negação do espaço institucional está a negação do espaço da fala, da produção da narrativa e da ação política. Quando as entidades minimizam a dimensão de uma injúria, desacreditam um atleta pelo “exagero” da sua reação, o punem por essa reação, e o reprimem se ele se posiciona criticamente, estão na prática criando e afirmando os limites até onde as pessoas que não são brancas podem ir. Até podem aceitar que houve uma injúria, mas não aceitarão facilmente que essa injúria mobilize vozes políticas que provoquem reflexões mais profundas, questionem privilégios e tentem transformar estruturas. Esse aspecto é importantíssimo para também entendermos que o silêncio de muitos atletas pretos, que não se pronunciam sobre o assunto com mais frequência ou intensidade, tem tudo a ver com as experiências de injúria, opressão e silenciamento que sofrem sistematicamente ao longo de suas carreiras e das suas vidas, como defende o Marcelo Medeiros Carvalho, fundador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol

O problema é que as instituições dirigentes, da forma como são hoje, certamente não reconhecerão elas mesmas o racismo como estruturante, seja por incapacidade, seja por desinteresse. E como não o enxergam, sua racionalidade e sua atuação vai ter limites muito claros para enfrentar as desigualdades, opressões e injúrias raciais. Parece improvável a transformação das federações, dos tribunais, dos veículos de mídia e das empresas que conduzem o futebol comercial, a partir de decisões internas, que seriam tomadas pelas mesmas pessoas brancas nos mesmos espaços institucionais viciados, que historicamente operaram o racismo, o machismo e a mercantilização do futebol. Faz sentido cobrar que tribunais e federações permeadas por dirigentes e protocolos brancos enfrentem o racismo? Faz sentido esperar que esse enfrentamento venha a partir da sua lógica de pensamento: punição individual, relativização do racismo e campanha educativa institucional e bem comportada? Faz sentido acreditar que o racismo no futebol vai ser enfrentado isolado do racismo presente em toda a sociedade?

O problema é que as instituições dirigentes, da forma como são hoje, certamente não reconhecerão elas mesmas o racismo como estruturante, seja por incapacidade, seja por desinteresse.

Se essas entidades puderem se transformar, e o quanto o esporte se transformou efetivamente ao longo da história, é mérito da luta e da ocupação crítica de pessoas pretas e anti-racistas. Nesse momento, são cada vez mais numerosas e potentes as mobilizações no esporte que partem de um outro ponto, com pretos como protagonistas e enxergando o problema na sua dimensão estrutural. Essas lutas infelizmente vêm se opor e resistir ao recrudescimento da opressão e da violência institucionalizada, mas têm apontado outras possibilidades de enfrentar as estruturas, ampliando o repertório de atuação e imaginação política, tentando gritar contra, aos invés de com, as paredes. 

As regras vindas de cima querem impor aos atletas do futebol e de outros esportes uma disciplina antipolítica. Só que o lugar simbólico que ocupam como ídolos e figuras públicas felizmente abre espaço para a fala com alcance. Muitos atletas e treinadores, que se dispõem e conseguem lutar, têm então trabalhado nessa fissura, puxando um debate mais profundo, entendendo o esporte, os atletas e os torcedores como espaço e agentes políticos. Organizados coletivamente, de forma perene e com ações simbólicas duras, se retiram dos campos e das quadras, se solidarizam com os seus pares denunciando a devida dimensão dos incidentes racistas, repudiam e boicotam ações racistas vindas dos dirigentes, desafiam o comando, o privilégio e a hierarquia, e principalmente dialogam com as outras lutas e movimentos anti-racistas que estão acontecendo para além do esporte. Cabe a nós, torcedores, apoiar, unir lutas, gritar junto e ouvir.

Pedro Lima
Arquiteto urbanista, formado pela FAUUSP. Estuda e atua nas áreas de política urbana, projetos urbanos e habitação, e se interessa por todo tipo de experiência insurgente, anarquismos e socialismos libertários. Acredita que esporte e política se misturam sim.

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