Uma nova esquerda cresce nos EUA: um balanço sobre as eleições de novembro

Foto: autor desconhecido

A eleição presidencial nos EUA se aproxima. No dia 3 de novembro 2020, milhões de estadunidenses irão às urnas decidir quem será o próximo presidente da maior potência hegemônica ocidental. Não será decidido somente o nome que ocupará a cadeira no executivo do país, mas também, simultaneamente, ocorrerão as eleições para o Congresso.

Em 2018, quando ocorreram as eleições de meio de mandato, os democratas conseguiram formar maioria na Câmara dos Representantes, apesar dos republicanos formarem maioria no Senado. Essas eleições representaram mais do que uma disputa bipartidária por controle político das duas instituições, mas o sinal de uma nova onda progressista ganhava força nos EUA. A reeleição de Bernie Sanders ao Senado, um socialista democrático, defensor da saúde e da educação públicas e gratuitas, de uma nova política ambiental e econômica para o país, o Green New Deal, e de outras políticas à esquerda, não foi surpresa pra ninguém, já que o mesmo já ocupava o cargo há dois mandatos seguidos pelo estado de Vermont. A novidade de fato ocorreu na Câmara, onde foram eleitas quatro mulheres que trouxeram debates progressistas até então deixados de lado pela ala mais moderada do Partido Democrata.

Vencendo democratas poderosos ligados à grandes instituições privadas nas prévias do partido, Alexandria Ocasio-Cortez (Nova York), Ilhan Omar (Minnesota), Ayanna Pressley (Massachusetts) e Rashida Tlaib (Michigan) se elegeram com um discurso de defesa das minorias étnicas e religiosas, com um programa de enfrentamento ao Immigration and Customs Enforcement (a polícia de fronteiras dos EUA), de valorização real dos salários, reforma do sistema penal, taxação de grandes fortunas, além da defesa da implementação de um sistema de saúde público e universal (Medicare for All). Não obstante, Alexandria e Rashida são membros dos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês), uma das maiores organizações socialistas dos EUA, e que em maio de 2020 contava com 66.000 membros. As 4 representantes são conhecidas como “O Esquadrão”, por conta de uma hashtag criada pelas congressistas, #squadgoals.

Desde que assumiram o cargo, as congressistas são atacadas constantemente por Trump e seus apoiadores, principalmente pelo fato de serem mulheres não-brancas e de minoria religiosa no país (Rashida e Ilhan são muçulmanas). Trump chegou mandá-las “voltarem para ajudar os lugares quebrados e infestados pelo crime de onde vieram”. As mesmas preferiram não dar nenhuma resposta direta ao mesmo, por entenderem que ele estava usando isso como plataforma para uma possível campanha de reeleição, assim como fez em 2016, com os ataques pessoais a Hillary Clinton. 

Foram dois anos legislando pelos seus Distritos, enfrentando o governo na Câmara e construindo movimentos de bases nas ruas, conquistando cada vez mais apoio popular, construindo uma rede de financiadores e incluindo no debate político grupos historicamente marginalizados, como imigrantes, mulheres, pessoas negras, latinas e trabalhadores no geral.

A nova onda de progressistas na Câmara estão
construindo uma rede de financiadores e incluindo no debate político grupos historicamente marginalizados, como imigrantes, mulheres, pessoas negras, latinas e trabalhadores no geral.

Em 2020, novamente as quatro representantes ganharam as prévias do Partido Democrata, ou seja, irão concorrer a uma reeleição em novembro. Além delas, outras muitas figuras progressistas também irão disputar essas eleições, algumas inclusive pela primeira vez, como Cori Bush, e entre elas, vários membros do DSA. Essa vitória é uma expressão do aumento da participação de minorias e pessoas jovens na política, visto que o discurso radical de enfrentamento ao Establishment e de uma nova política voltada para a maioria da população tem atraído a atenção desses grupos.

O crescimento orgânico de organizações mais à esquerda na política estadunidense tem preocupado tanto o Partido Republicano quanto a ala mais moderada/conservadora do Partido Democrata.

Para o Partido Republicano, esse grupo representa um risco para uma possível reeleição de Donald Trump, uma vez que apesar das diferenças políticas, os democratas progressistas irão apoiar e fazer campanha para Joe Biden, uma vez que movimentam uma base jovem que Biden não alcança. Outro agravante é o fato de que alguns setores republicanos mais moderados iniciaram movimentos contra Trump e em apoio ao candidato democrata, como o Lincoln Project e o Republicans for Biden.

Para os grupos mais moderados ou conservadores do Partido Democrata, que inclui Biden, os Clintons, Obama, entre outras figuras, essa ameaça se dá a partir do momento em que esses grupos pressionam a política do partido à esquerda. O Partido Democrata, desde os anos 80, vem abandonado cada vez mais a política de regulação do capitalismo e adotando a agenda neoliberal, tendo um conjunto de princípios econômicos muito parecido com os ideias republicanos nessa área, tendo muitas figuras próximas de Wall Street. A presença dessas organizações dentro do partido, como o DSA (a mais atuante hoje) faz com que o partido tenha que debater questões que foram, de certa forma, deixadas de lado ao longo do tempo. Essas figuras progressistas colocam a taxação de grandes fortunas, a necessidade de saúde e educação públicas, a urgência de uma nova política ambiental, e até mesmo o socialismo no centro do debate. Essas pautas ganham cada vez mais adeptos, e isso preocupa os moderados. Um exemplo claro é uma pesquisa divulgada pelo Gallup mostrando que cerca de 51% dos jovens nos EUA tem uma visão favorável ao socialismo.

O Partido Democrata, desde os anos 80, vem abandonando cada vez mais a política de regulação do capitalismo e adotando a agenda neoliberal, tendo um conjunto de princípios econômicos muito parecido com os ideias republicanos nessa área, tendo muitas figuras próximas de Wall Street.

O cenário é de que uma nova esquerda vem ganhando força no coração do capitalismo, trazendo debates importantes e necessários para a construção de uma outra sociedade, mais justa e igualitária. Para Trump, que já vem perdendo para Biden em quase todas as pesquisas até agora, a presença de um grupo forte e engajado na campanha democrata é preocupante. Para os democratas, a disputa política fica cada vez mais acirrada, e os amigos de Wall Street endurecem cada vez mais o discurso contra o movimento, como aconteceu nas previas do partido esse ano.

Outra possibilidade, com o modelo bipartidário sendo cada vez mais questionado e com a chegada de movimentos para criação de novos partidos, como o Movement for a People’s Party (MPP), é o deslocamento desses grupos para outro partido futuramente. Isso poderia fortalecer a ala moderada dentro do Partido Democrata, mas fortaleceria também os setores progressistas, uma vez que teriam mais autonomia para suas formulações e atuação política, acirrando as disputas dentro do território estadunidense. Mas até lá, resta saber como se dará os resultados em novembro, e independente disso, uma certeza é que o grupo continuará levantando suas bandeiras, com Trump ou Biden no executivo.

Emanuel Assis
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Paulista, pesquisa na área de política internacional, com foco em organizações de esquerda. Ativista.

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