“Graças à chuva de ontem”

Foto: Aleksandar Pasaric

O texto a seguir contém detalhes do filme. Caso prefira, você pode assisti-lo primeiro e, depois, retornar para ler.

A arte guarda em si a habilidade de escancarar o mundo, ainda que não precise dizê-lo. O longa-metragem escrito e dirigido por Bong Joon-Ho, vencedor de quatro “pesos de papel” na cerimônia do Oscar, escancara os recantos fétidos do capitalismo contemporâneo. É uma história que vale a pena ser contada, que não se omite diante dos abismos profundos que estruturam o mundo. É também uma história rica, que aglutina temas diversos em apenas pouco mais de duas horas.

Ambientado na Coreia do Sul, o enredo concentra-se nas moradias de duas famílias apartadas por suas classes. Sob o nível da rua, os quatro membros que se reúnem sob o sobrenome Kim agarram-se a qualquer oportunidade de sobrevivência. Na contramão, os Park precisam subir as escadas para entrar no monumento arquitetônico que habitam. Os opostos persistem: uma casa é impregnada pelo odor gerado pela condição semi-subterrânea, a outra retrata uma assepsia digna das alas de tratamento intensivo de centros hospitalares.

O filme revolve em torno das relações entre as duas famílias. Como alternativa para superar a pobreza, os Kim elaboram um plano para ocupar as posições de trabalho na residência da família Park: um professor de inglês, uma arteterapeuta, um motorista e uma governanta. Filho, filha, pai e mãe, que estabelecem uma relação particular com cada um dos quatro membros da família burguesa. Para tanto, performam uma imagem necessária para a sua aceitação na alta sociedade local. Em seu teatro, incentivam a demissão dos antigos funcionários da mansão. Os quatro performáticos extrapolam suas qualidades, falsificam documentos, emulam lealdade, fingem práticas de etiqueta, inventam relações e indicações profissionais e escondem suas relações de parentesco. Assim, garantem um salário ao fim do mês e usufruem de pequenas migalhas do luxo da burguesia.

A miséria dos trabalhadores coreanos é comum aos quatro cantos do mundo. A má-infinidade do capitalismo, que demanda uma acumulação crescente e perene, tende a agravar o abismo entre as classes, ainda que represente uma contradição do sistema econômico. Mesmo a qualidade da atuação dos quatro membros da família Kim é insuficiente para alterar materialmente sua condição. Permanecem submetidos à uma relação que marca sua classe, são ainda os despossuídos, mesmo quando encenam uma bebedeira com a adega dos patrões. O abismo é intransponível.

As tensões do enredo se avolumam conforme corre o contador dos minutos. Alguns momentos podem manter o espectador boquiaberto em razão da crueldade de uma sociedade que pretende eliminar os pobres como se fossem insetos. Quando a ex-governanta da mansão retorna a seu antigo local de trabalho em busca de algo perdido nas entranhas do concreto da construção, seu desespero pode ser logo compreendido: seu marido havia sido escondido no porão da casa, fugindo de credores que lhe cobravam dívidas. O homem vivera quatro anos, três meses e dezessete dias no subterrâneo antes de ser descoberto; sem acesso à luz do dia ou ao ar fresco; sua alimentação era provida por sua companheira, em pequenas remessas contrabandeadas da despensa da família contratante. É curiosa a devoção estabelecida entre o prisioneiro por dívidas e o patriarca de sobrenome Park, que não imaginara conceder abrigo a um pobre endividado em seu endereço. Em seu culto ao preceptor, o endividado afirma que se sente confortável no porão: “sinto como se houvesse nascido aqui”. A descoberta do homem enclausurado é um gérmen que frutifica apenas ao final do longa-metragem em um ato derradeiro.

Tampouco parece que o homem escondido no subterrâneo do monumento arquitetônico que também abriga a família Park reconhece seu papel na mitologia de seus quatro integrantes. Sua aparição ao caçula da família burguesa causou um trauma infantil ao ser reconhecido como um fantasma pela criança. A mãe do pequeno Da-song é capaz de fazer troça do episódio, ainda que zele por seu filho: “Dizem que um fantasma em casa traz fortuna. Na verdade, as finanças tem ido bem recentemente”. O assombro da figura que vaga pela noite na despensa e na cozinha da mansão, antes de um membro do imaginário mitológico, é representação de um problema sólido, tangível: a pobreza extrema, acentuada pela falta de moradia e pela proximidade da inanição.

Outra passagem marcante do filme circunda uma chuva torrencial que se aplaca sobre a cidade das famílias Kim e Park. Para os moradores das habitações semi-subterrâneas, a torrente resultou perdas irreparáveis; roupas, móveis e outros pertences foram perdidos para a água. Situação bastante próxima das realidades encharcadas vividas em terras brasileiras. A noite desses moradores foi dividida sobre o piso de um ginásio. Na vizinhança rica da mesma cidade, a chuva não anuncia a devastação. Pelo contrário, representa uma oportunidade diferente para a brincadeira do menino Da-song, uma reaproximação efêmera entre os adultos da família Park, ou um diálogo noturno entre a filha da família burguesa e o caçula de sobrenome Kim – que bailam um romance proibido em diferentes instâncias. A antinomia entre a vida das duas famílias é sintetizada em uma cena dentro do automóvel da família Park: ao telefone, Park Yeon-kyo agradece a chuva do dia anterior por limpar a atmosfera e extinguir o odor urbano; Kim Ki-taek, incomodado pela conversa de sua patroa, examina suas próprias roupas: o cheiro que importuna os Park era o que exalava de si.

A condução magistral de Bong Joon-Ho através das reviravoltas do enredo de Parasita contribui para a narrativa do longa-metragem. Das impressões possíveis para a vastidão de temas retratados pelo filme é possível destacar uma: em um mundo regido pelos imperativos do capitalismo, resta um abismo multifacetado entre trabalhadores e burgueses. As diferenças se notam nas moradias, nos hábitos alimentares, no vestuário. Em um dos exemplos notórios dos defensores do capitalismo, a Coreia do Sul, a desigualdade é levada a suas últimas consequências. Mesmo um dia de chuva é recebido de maneiras diferentes.

Leonardo Dias
Graduado em Relações Internacionais pela UNESP, e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Espera que amar e mudar as coisas continuem a nos interessar mais.

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