As conspirações da ideologia bolsonarista: uma tragédia em poucos atos

Fotografia de ondas em uma revolto. É possível ver a formação de uma espuma branca sobre o mar azul escuro.
Foto: Kenneth Carpina

A ascensão de Jair Bolsonaro à presidência da República pode ser entendida como parte de uma tendência mundial de atualização do fascismo dos anos 1930 ao século XXI. Esse retorno do autoritarismo sob uma de suas faces repugnantes também ocorre na Hungria de Orbán – no poder desde 2010 –, no partido polonês Lei e Justiça, na Itália de Matteo Salvini. A recente declaração de Roberto Alvim, imitando a estética, o discurso e a política do propagandista nazista Joseph Goebbles, explicita a admiração do atual governo às formas fascistas. Ora, o presidente já posou para uma fotografia ao lado de um insólito imitador de Adolf Hitler.

Hoje, como outrora, essa ideologia mantém, como um de seus fundamentos, uma interpretação de mundo que distorce a realidade em prol de seu projeto de poder. As formas fascistas de exercer o poder formulam uma narrativa infestada de medo, ódio e raiva. A complexidade inerente ao mundo real é reduzida a um conjunto de emoções irascíveis que influenciam a tomada de decisão e informam a condução de políticas que atentam contra a integridade de minorias como os estrangeiros, os povos semitas, os professos de uma ou outra fé, os adeptos a correntes políticas diferentes das suas, os membros da comunidade LGBTQIA+, as mulheres, entre outros grupos. Nessa ideologia, as comunidades que evadem aos padrões autoritários são consideradas ameaças à integridade de grupos falsamente considerados “puros”.

Atualmente, a difusão dessa ideologia se apoia em meios de comunicação que permitem a divulgadores alcançar seus interlocutores em poucos cliques. O retrato inverossímil da realidade foi exaustivamente publicado em redes sociais, em conjuntos orquestrados de sites e blogs, e em outros canais de divulgação na internet. Uma breve experiência utilizando sistemas de busca em plataformas de curadoria de conteúdo – como o Youtube ou o Google Notícias – podem ser catalisadores da propagação desse tipo de conteúdo. Os algoritmos que alimentam essas plataformas digitais tendem a privilegiar a apresentação de conteúdos similares – ou ainda mais radicais – de maneira a conservar a atenção de seu público. Cathy O’Neil é enfática ao afirmar que os modelos matemáticos que subsidiam a “indústria dos cliques” tendem a incorporar os preconceitos e as concepções ideológicas de seus criadores. Sua descrição para esses modelos matemáticos computadorizados é precisa: são armas matemáticas de destruição da realidade.

Em Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, Ana Lesnovski e Álvaro Borba, do projeto Meteoro Brasil, se dedicam a entender a propagação dessas teorias conspiratórias, sobretudo aquelas provenientes do que se convencionou chamar “filosofia” no Brasil da década de 2010. As aspas dão o tom irônico: o ideólogo do governo de Jair Bolsonaro – que não nomearemos para não espalhar seu ignóbil conteúdo – é mero divulgador de mentiras e tem aversão às práticas de uma filosofia real, atenta à realidade. Essas teorias, que divulgam falsas ameaças, articularam mentiras como a fundação de uma União das Repúblicas Socialistas da América Latina (URSAL), um inexistente kit pedagógico com lições para a sexualidade infantil, uma caricata mamadeira erótica, a onipresente dominação marxista através da hegemonia cultural. A lista é extensa – inclui até mesmo questionamentos ao formato do planeta e ao heliocentrismo – e atualiza antigas conspirações, traduzindo-as ao Brasil contemporâneo.

A tragédia é ainda maior. Essas teorias tendem a apresentar-se como uma elaboração irrefutável. Antes da compreensão, as narrativas que levam à destruição da realidade são uma questão de fé. Assim, crescem à margem da razão e repelem qualquer possibilidade de contestação. Seus críticos podem ser desacreditados imediatamente ao receberem o rótulo de membros da própria conspiração que ameaçaria os valores desse grupo desafortunado em razão.

Uma alternativa modesta consiste em reconhecer as armadilhas dessa “filosofia” antirrealidade. Associada a um apreço inabalável pelo conhecimento crítico e à valorização da verdade, essa alternativa pode conceder um respiro de lucidez em meio aos adeptos do fascismo no século XXI.

Um aspecto que demanda atenção na propaganda dessa ideologia consiste nas intersecções descritas entre diferentes teorias conspiratórias, formando algo como uma “super-teoria conspiratória”, capaz de erodir o tecido da realidade. Nesse sentido, Michael Barkun afirma a possibilidade de delinear três níveis distintos da conspiração: (i) conspirações de evento, relacionadas a um tema específico; (ii) teorias sistêmicas, que geram uma narrativa simplória para explicar a realidade; e (iii) super-conspirações, em que teorias contingenciais e sistêmicas são articuladas em uma narrativa enigmática, que reduz a realidade a poucas mentiras.

No Brasil contemporâneo, várias conspirações compartilhadas pelos apoiadores do governo se submetem a uma falsa ameaça maior: uma imaginada onipresença do marxismo e do comunismo ditando os rumos da política internacional através de uma hegemonia cultural. As narrativas do globalismo, dos “metacapitalistas”, da ideologia de gênero, da corrupção dos direitos humanos, da deturpação da ciência e da educação estão inscritas em uma grande narrativa do “marxismo cultural”, imaginada estratégia comunista para estabelecer um domínio mundial (sic). Os adeptos tupiniquins dessa “filosofia” se definem como apóstolos da resistência e verdadeiros conhecedores das ameaças aos valores e à imagem de uma sociedade ocidental judaico-cristã. Fingem esquecer – ou se atrevem a mentir a si próprios – que nasceram na periferia do mundo e compartilham do sangue latino, e provavelmente seriam negados nos portões racistas de outros “cruzados” de hoje.

Um retrato contemporâneo da expansão da destruição da realidade no Brasil – e no mundo – pode acarretar em sentimentos pessimistas diante das possibilidades escassas de reverter o quadro. Uma alternativa modesta consiste em reconhecer as armadilhas dessa “filosofia” antirrealidade. Associada a um apreço inabalável pelo conhecimento crítico e à valorização da verdade, essa alternativa pode conceder um respiro de lucidez em meio aos adeptos do fascismo no século XXI. Resta o combate incansável à desinformação e ao mau-caratismo dos ideólogos bolsonaristas.

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