“O amor é o segredo de tudo e eu pinto tudo em amarelo”

Fotografia de um campo de girassóis. Em primeiro plano é possível ver uma flor amarela. Ao fundo outras flores, junto a seus caules verdes. O céu é azul claro.
Foto: Luciana Sena

Amarelo é a mais recente obra de arte de Emicida. Nela, o rapper paulistano esbanjou toda sua maturidade musical, adquirida nas batalhas de rimas e aperfeiçoada ao longo de sua carreira, combinando potência e delicadeza para falar sobre o cotidiano. As poesias de Leandro retratam o peso de uma sociedade que se aplaca sobre as minorias – e sobretudo incide na população negra – mas não esquece de declamar o amor nos detalhes do dia a dia.

O álbum é perfurante quando necessário, mas evoca sorrisos no rosto de quem o escuta no transporte público em várias de suas faixas. O riso provém ora da beleza musical, ora da singeleza do retrato do cotidiano registrado por Emicida. As rimas, o canto, a declamação, os instrumentos e a batida; todos esses elementos confluem para a composição de um dos melhores álbuns de 2019 – talvez o melhor.

Algumas músicas são especialmente impactantes. Elas somam um arranjo musical preciso à poesia do rapper. Não poderia deixar de investir algumas linhas deste elogio para falar sobre aquelas que mais me impressionaram. Este texto é um pequeno elogio ao lindo disco de Emicida. Aproveite e coloque o som de Leandro em seus fones, e aproveite 48 minutos e 48 segundos de pura beleza.

“A merendeira desce, o ônibus sai
Dona Maria já se foi, só depois é que o sol nasce
De madruga que as aranha desce no breu
E amantes ofegantes vão pro mundo de Morfeu”

Ordem natural das coisas

Emicida lembra de sua mãe que costuma dizer que a “vida sempre vence”. Essa vida tem na canção uma ordem natural, que, mesmo nas manhãs que lembram a guerra do Vietnã, está repleta de coisas belas. É possível vê-las na gentileza do Sol em vir depois de Dona Maria, no som das crianças indo para a escola, na forma das nuvens. Ordem natural das coisas é um lembrete para observar beleza nos atos e nos detalhes mais singelos do dia a dia. Parar, respirar e ouvir com atenção as cordas, os metais, a batida e a voz MC Tha junto à do rapper é uma das coisas belas que podem ser incluídas nessa ordem natural em todas as manhãs.

“Então, eu vou…
Bater de frente com tudo por ela
Topar qualquer luta
Pelas pequenas alegrias da vida adulta eu vou, ô ô ô ô
Eu vou…
Pro front como um guerreiro
Nem que seja pra enfrentar o planeta inteiro
Correr a maratona, chegar primeiro
E gritar: é por você amor”

Pequenas alegrias da vida adulta

Em uma poesia extremamente intimista, Emicida traz à luz as Pequenas alegrias da vida adulta. É possível criar uma ponte direta entre essa canção e a outra, pois ambas destacam aquilo que reluz no cotidiano de todos nós. A contemplação banhada pelas teclas de Marcos Valle leva a um refrão que exorta: as pequenas alegrias nos fazem ir além por aqueles que amamos. O clipe da faixa é de uma beleza única e retrata a felicidade e o amor em uma pequena família de trabalhadores, que encontra tempo para celebrar os momentos de alegria, nem que seja preciso “enfrentar o planeta inteiro”.

“Do fundo do meu coração
Do mais profundo canto em meu interior
Pro mundo em decomposição
Escrevo como quem manda cartas de amor

Cananéia, Iguape e Ilha Comprida

Escutar Cananéia, Iguape e Ilha Comprida me faz abrir um riso largo toda a vez. O poema mantém o tema da felicidade e do amor, mas não se furta a indicar a função de nossas metrópoles: “necrópolis assassinas de domingo, a furtar tudo o que é lindo”. Mas esse mundo em decomposição não pode ser o fim dos sonhos de um novo viver. A canção, acompanhada de uma conversa entre o rapper e seus rebentos, lembra a possibilidade de construir um futuro distinto aos pouquinhos: com folhas amarelas nos cabelos de todas as meninas e meninos, cores e mais cores que deixarão o mundo com gosto de sobremesa, e cartas de amor escritas mesmo quando faltarem canetas.

“Deus, por que a vida é tão amarga
Na terra que é casa da cana de açúcar?”

Principia

A faixa que abre o álbum dá o tom das canções que a seguem. Emicida não se furta a retratar a aspereza da vida no Brasil. Ao mesmo tempo, indica um caminho para suportá-la e ver alegrias nas pequenas coisas: o amor fraterno e a comunhão, mesmo entre pessoas tão diferentes. A música conta com a voz de Fabiana Cozza, a declamação do pastor Henrique Vieira e a cultura africana nas vozes das Pastoras do Rosário. Ao elogiar a fraternidade como caminho para superar os obstáculos da vida, Emicida recorda que “um sorriso ainda é a única língua que todos entendem”. Principia ainda faz referência às leis da Física de Isaac Newton, e insiste que, após se encontrarem, duas pessoas terão suas vidas permanentemente mudadas.

“Meu bem,
Ó meu bem, a gente ainda vai sair nos jornais
Ó meu bem, meu benzinho
A gente ainda vai!”

9inha

O retrato da relação entre um jovem e sua pistola 9 milímetros, sublinha as cores passionais que a violência pode assumir no Brasil contemporâneo. Por um lado, a arma pode ser um instrumento “excitante” para alcançar prestígio e garantir seus sonhos; por outro, Emicida não esquece que “pra tirar um barato, as veiz a gente paga tão caro”. Em um Brasil fascinado pela violência e excitado pela possibilidade de acumular armas debaixo da cama, é preciso lembrar que “o final é sempre trágico”.

“Olhei no espelho
Ícaro me encarou
Cuidado, não voa tão perto do sol
Eles não aguentam te ver livre
Imagina te ver rei”

Ismália

Ismália é uma faixa de potência dificilmente igualável. Emicida recorda dois casos emblemáticos da violência do Estado contra a população negra: o assassinato de Evaldo Santos Rosa e Luciano Macedo por duas centenas de disparos do Exército; e a chacina de Costa Barros, em que 111 tiros foram realizados contra Carlos Eduardo, Cleiton, Wilton, Roberto e Wesley que comemoravam o primeiro salário de um deles. “Quem disparou usava farda” em um país em que a cor “importa demais”. A faixa ainda conta com Fernanda Montenegro declamando o poema Ismália de Alfonso de Guimarães. Qualquer palavra que tente reproduzir o eco dessa faixa ainda será pouca; ao invés de ler as letras acima, escute-a.

Outras faixas do álbum podem ser tão impactantes quanto as seis que partilhei acima. Elas incluem a voz de Zeca Pagodinho em Quem tem um amigo tem tudo; o sample de Belchior em AmarElo, que dá nome ao álbum, e é cantada também por Majur e Pablo Vittar. Também não seria possível negligenciar a onipresença do mestre do samba, Wilson das Neves, em toda a confecção desta obra prima.

Amarelo é uma obra para ouvir tantas e tantas vezes, para não sucumbir ao mundo.

Leonardo Dias de Paula
Graduado em Relações Internacionais pela UNESP, e mestrando pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Espera que amar e mudar as coisas continuem a nos interessar mais.

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