Quanto custa uma revolução? Reflexões sobre Cuba no contexto latino-americano

Foto: Yuting Gao

Refletir sobre o processo revolucionário cubano é uma importante ferramenta para pensar a recente convulsão social que abateu a América Latina, marcadamente após as mobilizações no Chile, Bolívia e Colômbia. Livre da pretensão de encontrar respostas prontas ou apresentar um rigor acadêmico absoluto, este ensaio parte da visão pessoal do autor sobre os acontecimentos políticos na região e sua experiência durante 15 dias na ilha de Fidel, Che e Camilo.

A vitória final do Movimento 26 de Julho contra a ditadura de Fulgencio Batista, em 1º de janeiro de 1959, marcou a história da América Latina e toda a produção do pensamento político na região. A dicotomia sobre Reforma ou Revolução, os debates sobre o papel do imperialismo norte-americano, as possibilidades de superação da dependência econômica e tantos outros passaram a olhar para Cuba como um paradigma importante de resistência às mazelas do capitalismo.

O socialismo logrou três feitos importantes e considerados pilares essenciais da vida na ilha pelos cubanos, a universalidade da educação, da saúde e um sistema efetivo de segurança pública.

No entanto, os ventos trazidos pela virada para a década de 1960 não foram esperançosos, diante dos golpes civis-militares e das dinâmicas da Guerra Fria que mancharam de sangue a história latino-americana. A falta de democracia, a imposição de políticas neoliberais, corrupção sistêmica, crescimento da pobreza, ampliação da desigualdade social e estruturas de Estado adeptas à repressão, tortura e assassinatos foram as heranças desse período.

Nessa história há um ator em comum, os Estados Unidos da América, que financiou e deflagrou operações político-militares em todos os países da região com alvo e objetivo único, as organizações populares socialistas e comunistas e seus militantes. Nos sessenta anos da Revolução Cubana, as disputas ideológicas, comerciais e bélicas com os Estados Unidos marcaram os principais desafios da manutenção do regime liderado por Fidel Castro.

A realidade da ilha é marcada pela turbulenta convivência com seu vizinho. Se antes da revolução a Emenda Platt e as propriedades rurais, industriais e o setor de turismo ameaçavam o futuro dos cubanos, após a revolução, as sabotagens e o embargo comercial não permitem que o regime sobreviva em paz – sobretudo depois da dissolução da União Soviética.

O socialismo logrou três feitos importantes e considerados pilares essenciais da vida na ilha pelos cubanos, a universalidade da educação, da saúde e um sistema efetivo de segurança pública. Elementos que podem ser verificados por qualquer pessoa que viaje a ilha quando nos deparamos com uma sensação de segurança em qualquer cidade, com a inexistência de trabalho infantil e um sistema de saúde tratado como patrimônio coletivo.

Dentre as principais críticas ao regime cubano, estão as condições materiais precárias dos postos de saúde, hospitais e escolas. De fato, muitos desses espaços não reúnem a melhor condição de infraestrutura, os hospitais não se assemelham ao Sírio Libanês e as clínicas não são como uma unidade do Fleury. Mas diferente desses exemplos, qualquer pessoa é bem-vinda nesses espaços e há profissionais em todos os rincões e periferias do país.

No processo de revolução, os cubanos se acostumaram a abrir mão de elementos de luxo, em alguns momentos por opção pragmática para garantir investimentos em outras áreas ou políticas públicas. No entanto, em boa parte das vezes, não lhes foi garantido o direito de escolha por conta do embargo estadunidense, que os meios de comunicação cubanos fazem questão de memorar e pontuar diariamente.

No período que estive na ilha, uma matéria sobre um jovem amputado que não podia obter a prótese correta me chamou a atenção no noticiário noturno. Apesar do governo cubano garantir recursos para compra, havia uma especificidade de modelo que era de patente e produção exclusiva de uma empresa dos EUA.

A expectativa de superar os problemas decorrentes do embargo comercial foram frustradas após o governo de Donald Trump interromper o processo iniciado por Obama, que havia restabelecido relações diplomáticas formais e suspendido o embargo. 

As reformas econômicas, comerciais e no regime de propriedade iniciadas por Raúl Castro mudaram a paisagem da ilha cubana que recebe uma enxurrada de investimentos, em especial no setor de turismo, apesar o freio que Trump colocou na aceleração desse processo. Em 2019, festividade dos 500 anos de Havana, Cuba encontra-se em plena expansão do setor de construção civil com as obras de restauração de sua capital e da expansão da indústria do turismo – notadamente pelos empreendimentos do grupo francês Meliã e do espanhol Iberostar, que inauguraram hotéis luxuosos em Havana e possuem obras em outras cidades como Trinidad e Varadero.

As contradições da abertura econômica se expressam na ilha de distintas maneiras, seja pelas novas lojas de grifes europeias de roupas e perfumes ou pela expansão de uma lógica de consumo na sociedade. As mudanças no estilo de vida dos mais jovens são perceptíveis ao caminhar pelo país, o que impõe novos desafios para a manutenção da revolução que não tem a presença física de seu maior líder, falecido em 2016.

O fim dos governos castristas e a eleição do primeiro presidente nascido após a Revolução ocorrem em um momento atribulado da história do continente. O fim da onda progressista, o enfraquecimento da revolução bolivariana na Venezuela e o crescimento da extrema direita na região colocam em risco os laços de solidariedade fundamentais para redução dos custos de produtos estratégicos, como o combustível.

No horizonte de Cuba, a convivência com as contradições da abertura econômica e a exposição a uma nova lógica de propriedade ressignificarão o processo revolucionário. Cada vez mais exposto aos efeitos da globalização, não só filmes, novelas, videoclipes, músicas e notícias, mas a capacidade material de consumir tais produtos farão com que o regime socialista encontre uma resposta para conciliar estilos de vida baseados em valores opostos. 

Dentre as inúmeras lições que a Revolução Cubana pode nos ensinar, uma das principais é que a chama da utopia de um mundo melhor permanece acessa e vibrante.

Nos anos 1990, tais contradições levaram à emergência de inúmeras mobilizações na América Latina que possibilitaram a resistência à agenda econômica da época e posteriormente possibilitaram a emergência de governos que buscavam responder a tais políticas. De início, a região construiu respostas à altura para reduzir a pobreza, a desigualdade e promover políticas públicas emancipadoras. 

No entanto, encerrou-se esse ciclo sem que fosse transformada definitivamente a lógica de construção dessas sociedades com a construção de uma onda reacionária. Hoje, um novo período de mobilizações contra às mazelas do capitalismo emergem.  

Na agenda do dia questões centrais do sistema capitalista, tais quais: a injustiça e segregação social, o acesso a serviços públicos, empregos dignos, direito à cidade, moradia e mobilidade urbana, a recorrência da violência, do desalento e do desemprego, a falta de perspectiva para aposentar-se e tantas outras problemáticas. Inúmeros desses problemas que Cuba aos poucos tem conquistado superar ou mitigar.

Os desejos e ambições dos cubanos não se distanciam daqueles que motivam os protestos na América Latina nos dias de hoje. A vontade de não ser privado de experiências e bens de consumo, a luta pela melhora nas condições de vida, a constante insatisfação sobre o modelo de sociedade que estamos construindo e tantas outras questões são comuns a nós. 

Dentre as inúmeras lições que a Revolução Cubana pode nos ensinar, uma das principais é que a chama da utopia de um mundo melhor permanece acessa e vibrante. O custo das revoluções envolve vidas, sacrifícios, mudanças de comportamento e a eterna sedução pelo que vem de fora. Mas, cabe a cada um de nós responder, qual é o custo do sistema que vivemos?

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João Victor Motta
Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e mestrando pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP).

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