Ayti: história de uma revolução ininterrupta

Foto: Héctor Retamal

Dentre as muitas formas de narrar o passado, a história haitiana parece ser sempre contada com tintas sanguíneas. É bem verdade, a violência é um elo profundo que une haitianos à América Latina; assim como a pobreza e a indelével marca do colonialismo de outrora e dos imperialismos de hoje. É uma história que sufoca, mas que impele os povos a bradarem por justiça, liberdade e igualdade. Talvez seja mais interessante justamente enfatizar o poder transformador da indignação contida nas revoltas e nas revoluções ao redor de toda a região. Há ainda outros caminhos para contar a história dos povos latino-americanos, que enfatizem a vivência dos povos locais, sua cultura e seu potencial transformador.

Sob essa perspectiva revolucionária, a história do Ayti, a terra das montanhas, é abundante. Liderada por negros e mulatos, a Revolução Haitiana na transição dos séculos XVIII e XIX expulsou os colonizadores franceses. A “Pérola do Caribe” havia sido uma peça fundamental para o projeto colonial francês, enriquecendo a metrópole pela larga produção de cana-de-açúcar e gerando demanda intensa para o tráfico de escravos no oceano Atlântico. Não à toa, a repressão colonial à revolta capitaneada por Toussaint L’Ouverture foi atribuída ao cunhado de Napoleão Bonaparte, o general Charles Leclerc, e dotada de ao menos 25 mil militares da mais bem preparada máquina de guerra do período. A revolta demandava profunda liberdade e irretocável igualdade para os escravos da Ilha de São Domingos, e pode ser situada entre as grandes revoluções do início da Idade Contemporânea. A Revolução Haitiana questionou os brados que ecoavam das Revoluções Estadunidense e Francesa, tensionando a extensão de seu alcance. O liberalismo de estadunidenses e franceses era insuficiente já em seu berço.

Após a prisão de Toussaint, Jean-Jacques Dessalines se incumbiu de adicionar a independência aos votos do movimento revolucionário. A revolução negra foi vitoriosa, apesar da assimetria em relação a seus oponentes, e o ano de 1804 ficou marcado para a história da América Latina por consagrar a primeira independência sucedida na região e a constituição da primeira república negra contemporânea em todo o mundo. A revolução não foi isenta de suas próprias contradições, e tampouco traçou um caminho ladrilhado por brilhantes para o futuro dos povos haitianos.

A história das revoltas haitianas não se limitaria à independência em relação à França. Ao longo dos séculos seguintes, a população local se reuniu por diversas vezes para protestar contra as políticas que geraram extrema pobreza e desigualdade, contra a ocupação estadunidense entre 1915 1934 – e posteriormente contra as intervenções sob a flâmula da ONU nas décadas de 1990, 2000 e 2010. O povo haitiano resistiu à violência de governos autoritários, como dos ditadores François e Jean-Claude Duvalier, e a seguidos golpes de Estado, que minaram a estabilidade política e incitaram a manifestação de formas diversas de violência. No campo internacional, a recorrente ocupação do território por fardas estrangeiras e o reforço da dependência econômica estão presentes em uma relação de dominação que congrega formas de coerção à fabricação de consensos.

“Nou ta dwe viv tankou moun.” / “Nós devemos viver como pessoas.”

É bem verdade que as manifestações que se desenredam desde julho de 2018 têm raízes em um modelo de exploração colonial do Haiti que se estendeu no decorrer dos anos assumindo diversas formas distintas. Há, porém, demandas mais imediatas que catalisaram o movimento de revolta, colocando em marcha protestos que se estenderam através do país caribenho. Pode-se atribuir a crise mais recente, entre outros elementos: um aumento significativo dos preços dos combustíveis, que incidiu sobre produtos alimentícios e outros itens de consumo básico; à revelação de um escândalo de corrupção envolvendo acordos de cooperação energética com a Petrocaribe, aliança entre os países caribenhos e a Venezuela para a compra de petróleo em condições privilegiadas, com valor estimado de um quarto do Produto Interno Bruto haitiano; e, uma crise energética derivada da submissão ao embargo estadunidense sobre o petróleo extraído na Venezuela de Nicolás Maduro. O receituário ministrado pelo governo do presidente Jovenel Moïse coincide com as medidas liberais recomendadas pelo Fundo Monetário Internacional como condição para novos aportes internacionais de recursos.

Somada a problemas estruturais longevos, a inflação derivada da política liberal do governo haitiano em relação ao setor energético agravou sensivelmente as condições de vida de grande parte da população local. Serviços de transporte, unidades educacionais encerraram suas atividades e centros de saúde funcionaram de maneira intermitente; uma crise severa se aplacou sobre a produção de alimentos por pequenos produtores no interior do país, e alimentou crises no comércio e em outros setores produtivos. Vale insistir: as condições de vida anteriores à crise que se iniciou em 2018 tampouco sugerem um quadro de prosperidade; pelo contrário, outra recorrência das tentativas de contar a história haitiana enfatizam a perenidade das condições de pobreza, fome, a impossibilidade de acesso a serviços públicos básicos como a educação, a saúde e a justiça do Estado.

A revolta popular iniciada ainda em 2018 incluiu formas diversificadas de manifestação: desde marchas públicas à construção de barricadas, instigando a contrariedade em relação às políticas implementadas pelo Estado contra seu próprio povo. A população nas ruas, entre outras frases de protestos, entoou: nou ta dwe viv tankou moun, brado que poderia ser traduzido do Créole como “devemos viver como pessoas”. A indignação haitiana desvelou o caráter inumano da exploração capitalista levada a seus limites ao longo dos séculos na margem do mundo.

O governo de Moïse decidiu por agir contraditoriamente diante da revolta popular. Em primeiro momento, negou-se a reconhecer às demandas locais, encastelando-se. Com a continuidade das movimentações contrárias às suas medidas de austeridade e sua corrupção, os mandatários admitiram a necessidade de promover um diálogo, desde que seus resultados subordinassem as demandas aos ditames do governo. A repressão das manifestações foi o estágio final da ação governamental contra o movimento, buscando silenciá-lo. Recorda-se que as forças de segurança haitianas são reconhecidas por sua violência e brutalidade contra civis, pela violação de direitos e liberdades fundamentais.

A indignação haitiana desvelou o caráter inumano da exploração capitalista levada a seus limites ao longo dos séculos na margem do mundo.

Em síntese, uma interpretação da revolta haitiana de 2018 e 2019 pode remeter às raízes revolucionárias dos Jacobinos negros na transição entre os séculos XVIII e XIX. Quando pensada para além da violência, revela a demanda de uma população historicamente explorada e submetida aos interesses de atores mais poderosos na arena internacional. Os valores de profunda liberdade e igualdade presentes na revolução de Toussaint L’Ouverture e Jean-Jaques Dessalines foram somados aos clamores de todo um povo por condições dignas de vida. O questionamento aos limites parcos do liberalismo nascido das revoluções francesa e estadunidense reverbera no confronto às medidas liberais implementadas ao longo dos séculos XX e XXI por diferentes governos sob os auspícios de uma comunidade internacional interessada em extrair lucros da pobreza do país caribenho.

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Leonardo Dias de Paula
Graduado em Relações Internacionais pela UNESP, e mestrando pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Espera que amar e mudar as coisas continuem a nos interessar mais.

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