Por uma Pedagogia Crítica e Emancipadora

Foto: Dids

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, mais conhecida entre os educadores como LDB, prevê em seus primeiros artigos a finalidade da educação e onde ela acontece. Nesse sentido a lei diz que a educação é tudo aquilo que visa formar o ser humano, ou seja, todo o aprendizado e processos formativos, dentro ou fora do ambiente escolar. A educação, portanto, a partir da interpretação da LDB, se dá de maneira ampla e em diferenciados espaços de convivência e aprendizado, e a escola não é a única catalizadora do processo educativo. Desse modo, é importante pensarmos a educação como um conceito amplo para entender a diversidade dos espaços de aprendizado e as finalidades educacionais que se dão de formas diferenciadas em cada um desses espaços. Assim, é preciso pensar a educação como um meio de transformação da realidade, o que envolve também pensar em quais espaços acontece e de que forma impacta aqueles que se envolvem nesse processo.  

Além disso, a lei prevê também que a “educação é dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, e tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania (…)”. Nesse sentido, a educação não só acontece em amplos espaços, mas também tem como finalidade e princípios a liberdade e o preparo para o exercício da cidadania, tendo em vista o desenvolvimento pleno do educando. Esse desenvolvimento pleno se refere não só ao conhecimento dos seus direitos enquanto cidadão, mas também como sujeito crítico de todos os processos que envolvem o exercício da cidadania. Nesse ponto podemos perceber que a própria lei brasileira dispõe de artigos que garantem a todos os brasileiros recursos que o levem à criticidade, estamos falando, portanto, de uma educação leva o educando à criticidade e ao exercício pleno da cidadania, respaldada pela lei.

Contudo, será que estamos conseguindo cumprir de fato os princípios da lei que rege a educação brasileira? Fugindo de respostas imediatas, é preciso entender o processo de reformulação que a educação vem sofrendo para chegar aos patamares de atender a lei, o paradoxo entre a teoria e a prática é real. Nesse sentido, a teoria crítica desenvolve uma metodologia de educação que atende aos anseios de quem deseja uma educação mais democrática e diversa.

O conceito de pedagogia crítica foi pensado por um dos mestres da pedagogia brasileira: Paulo Freire, que defende que a educação deve acontecer de forma horizontal, dentro e fora da sala de aula. Para ele os professores não são os detentores de todo o conhecimento e nem os alunos são apenas receptáculos passivos de um conhecimento engessado.  Freire entende a sala de aula como um espaço de troca horizontal de conhecimentos em que professores e alunos podem compartilhar de maneira que todos sejam agentes de uma educação emancipadora. Nessa concepção de Paulo Freire, o professor mais que um mestre se torna um educador, e o aluno deve ser visto na perspectiva de um educando. Assim, a partir de tais conceitos diversos, professores desenvolvem a pedagogia crítica em sala de aula.

Entender a educação como um processo amplo de aprendizagem requer uma desconstrução de pensamentos históricos enraizados na sociedade brasileira, e, além disso, requer vontade de mudança não só das autoridades, mas também de todas as pessoas envolvidas nos processos de aprendizagem.

O Educador

Alvo de várias críticas, o educador enfrenta desafios diferentes frente ao exercício da profissão, o primeiro deles referente a sua própria formação. Dentro dos diversos cursos voltados à educação, o que se percebe hoje entre os graduandos é que estes não são plenamente preparados para enfrentar uma sala de aula. Entre bibliografias rasas e falta de prática didática, muitos dos professores que se formam não têm noção do que é lecionar para uma sala de aula com 40 alunos. Essa noção aparece com o tempo e experiência. Contudo, nesse caminho até a experiência, muitos erros são cometidos, o que impacta não só a atuação do professor em sala de aula como também a receptividade do aluno em relação à disciplina ou à metodologia do educador. Não há a quem culpar dentro desse processo de defasagem, tendo em vista que o problema é histórico e não pontual.

Outro desafio é a falta de recursos. É dever do governo federal, em se tratando de educação básica pública, disponibilizar uma série de políticas que possam servir como base de apoio ao professor e a todo o corpo de profissionais da educação, que sem as quais não têm a possibilidade de exercer plenamente suas profissões. Dentro desse emaranhado de problemáticas apresentadas ao profissional da educação, a mais enfática é a desvalorização intelectual e financeira do professor. Sabemos que hoje no Brasil, lecionar é visto como trabalho secundário, e por isso restam ao professor baixas remunerações dentre o quadro dos trabalhadores em geral, o que constitui um grande paradoxo, tendo em vista que quem forma todos os profissionais, de qualquer que seja a área, é um professor.

Além dessa desvalorização financeira, os professores brasileiros enfrentam um sério cerceamento da liberdade de ensinar. Para construir e desenvolver uma pedagogia crítica de fato, é importante que o educador possa exercer plenamente sua liberdade de construção de um planejamento curricular que vá de acordo não apenas com as demandas de conteúdo, mas também com as experiências e vivências de cada aluno. Frente ao panorama atual do Brasil, muito professores das redes privada e pública estão perdendo espaço de crítica e promoção da emancipação para dar lugar a um conteúdo de forma “crua” e reprodutivista. Assim, observamos um quadro que indica que, de um lado, temos professores desmotivados diante dos desafios impostos pela má administração da educação como um todo, e, por outro, o cerceamento da liberdade dos educadores de planejar e elaborar o currículo de acordo com os métodos propostos pela pedagogia crítica. Retomo, não há a quem culpar!

O Educando

A palavra aluno, na definição morfológica, significa “aquele que não tem luz”. A aplicação e uso dessa palavra para os estudantes já pressupõe que estes são passivos dentro do processo de conhecimento, e vistos como apenas receptáculos de saberes, assim como uma esponja absorve água e continua inerte. Contudo, na visão da pedagogia crítica, o aluno é visto como um aprendiz, e se torna não só protagonista de seu próprio processo de aprendizagem, bem como agente fundamental de sua própria emancipação intelectual. Dentro dessa perspectiva, educadores e educandos se apropriam dos conhecimentos e fazem das aulas um espaço de troca de saberes, o que torna todo o processo de aprendizagem ainda mais prazeroso.

Freire entende a sala de aula como um espaço de troca horizontal de conhecimentos em que professores e alunos podem compartilhar de maneira que todos sejam agentes de uma educação emancipadora. Nessa concepção de Paulo Freire, o professor mais que um mestre se torna um educador, e o aluno deve ser visto na perspectiva de um educando.

A escola em si corrobora um projeto burguês. Analisando a história do Brasil, podemos perceber que a criação das escolas não tem como objetivo principal a transformação da realidade vigente e muito menos a emancipação dos seres humanos. A escola, em sua origem, tem como objetivo formar os seres humanos para que a máquina burguesa continue criando seus marcadores sociais. Desse modo a transformação da educação burguesa em uma educação emancipadora que possa proporcionar ao aluno uma transformação da sua realidade e da realidade do outro é um projeto audacioso que demanda tempo e determinação daqueles que o encabeçam. A recompensa é a transformação da sociedade e uma possível extinção das desigualdades sociais. Nesse processo, colocar o educando como agente é fundamental, para possibilitar meios de crítica à educação dominante e à sociedade como ela é imposta às minorias. O professor tem o papel imprescindível de despertar nos aprendizes o espanto, a curiosidade, o pensar, e, nesse despertar, criar um diálogo de amorosidade e compartilhamento. Nessa perspectiva a educação está diretamente ligada à vida; o universo em que o aluno vive também é importante no seu processo de aprendizado, assim como as experiências por ele vivenciadas.

Próximos passos

Entender a educação como um processo amplo de aprendizagem requer uma desconstrução de pensamentos históricos enraizados na sociedade brasileira, e, além disso, requer vontade de mudança não só das autoridades, mas também de todas as pessoas envolvidas nos processos de aprendizagem. Paulo Freire assim como outros grandes brasileiros que dedicaram suas vidas a pensar a educação como uma ferramenta emancipadora, nos deixam como legado a esperança de que através da educação é possível se pensar e construir uma sociedade cada vez mais horizontal e democrática.

Desse modo, projetos que visam o retrocesso e a censura dos saberes devem ser combatidos não só pelos educadores, como também por todas as pessoas que acreditam que a educação e a libertação andam de mãos dadas. Nesse momento de recesso democrático que vive o Brasil, tais ideais expressam a nossa resiliência, a crença na democracia plena e em um país melhor para todos.

Daiara Suellen Gabriel
Mestranda no Programa de História Social da Universidade de São Paulo. Feminista negra interseccional, educadora e pesquisadora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *