Bacurau e a epistemologia da Vida (ou um manifesto da existência)

Foto: Ian Turnell

“Já viu Bacurau?” é a pergunta que vem ecoando dos corredores dos cafés, bares, e quaisquer outros espaços de encontro nas últimas semanas Brasil afora. Filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles lançado esse ano, Bacurau tem marcado presença nas maiores premiações de cinema e deixado marcas no imaginário de quem o vê. A dupla recifense possui histórico de colaboração em produções cinematográficas, como os também excelentes Aquarius (2016), O Som ao Redor (2012) e Recife Frio (2009). Quem já conhecia as outras obras, provavelmente foi ao cinema no aguardo de encontrar crítica social na sutileza do ambiente, na trama lenta. De fato, é assim que Bacurau se inicia. Sob a voz acalentadora de Gal Costa, vê-se a Terra se aproximando lentamente. Na imensidão do universo, já é manhã no Nordeste brasileiro. Somos levados direto para o rosto de Teresa, uma jovem-mulher-negra-migrante que, na sua responsabilidade de carregar vacinas para a cidade natal, nos apresenta no primeiro ato da obra a personagem principal: Bacurau. Povoado pernambucano com acesso por vias esburacadas, pelas quais se passa por um acidente entre um motoqueiro e um caminhão que carregava caixões – aqui a primeira referência explícita ao vocabulário vida/morte. Teresa está pegando carona no caminhão pipa de um amigo. A água tem dono, é bloqueada e fonte de problema. Os primeiros minutos fazem imaginar o retrato do sertão conhecido. A expectativa do Nordeste miserável, do nordestino que sente fome e sede (afinal, por que é que só somos lembrados por isso?).

Provavelmente, no mínimo todo nordestino conhece uma Bacurau. Bacurau existe. Bacurau está no mapa. Pelo menos estava, algum dia esteve…

Bacurau é muito do que hoje é o interior nordestino globalizado. Além da precariedade, abriga os instrumentos considerados civilizados. Todos da comunidade possuem smartphone, pelos quais se comunicam no grupo do WhatsApp. Andam de moto. Vestem camisa pirateada da Adidas. Mas Bacurau também é esse Nordeste “daqui a alguns anos” – letras que aparecem no começo do filme, anunciando um futuro incerto, mas avisado como consequência desse presente. Lá, a radiola do carro de som tem telão, as aulas na escola de estrutura humilde são feitas com o auxílio de equipamento interativo, o caminhão pipa velho tem painel touch screen. A temporalidade é o primeiro ponto que chama a atenção na narrativa. Daqui a quantos anos se está falando? O Brasil evoluiu? Futuro é progresso? Ordem? Kleber e Juliano brincam o tempo inteiro com elementos futuristas em um cenário decadente, preso no passado. Ou com objetos antigos em contextos futuros – como os estrangeiros valorizando as armas vintage e os drones em formato de disco voador saído de um filme antigo. A escolha da canção de Gal, que carrega a sonoridade dos anos 70, um som de sintetizadores que fala de discos voadores, também representa esse tempo dialético. As fusões são retrato do Brasil, múltiplo em todas as suas faces, diverso e dicotômico. Colonizado e rico. De cultura forte e política esquizofrênica. Da vida e da morte. A morte é o motivo da ida de Teresa à Bacurau. Carmelita, matriarca negra, guardiã daquela gente, morreu aos seus 94 anos. Todo o povo se reúne para levar Carmelita para a terra. 

Bacurau recebe visitas. A primeira delas é do prefeito. Tony Junior chega de Hilux, atrás do carro de som que toca o jingle de campanha na altura máxima. Com megafone e máquina de coleta da biometria em mãos, Tony saúda o povoado relembrando que as eleições estão próximas. Nenhuma alma viva à vista. Todos escondidos. E então, para calar a boca do oportunista, começam os xingamentos de longe. “Filho d’uma égua”, “vai-te pra merda”, “pilantra” e outras pérolas que a língua portuguesa-brasileira-nordestina nos permite viver. O prefeito deixa um carregamento de livros em péssimo estado jogados no chão, quilos de mantimentos vencidos e dezenas de caixas do remédio mais vendido no Brasil – importante destacar que o tal remédio é um analgésico tarja preta distribuído gratuitamente que deixa o povo leso e vem em formato de supositório. Tony reúne sozinho as conhecidas figuras do prefeito do interior, que alimentam suas futilidades da miséria alheia. Bacurau se dá melhor sozinha. É autônoma. Consegue se virar sem água, organizando um sistema de banhos coletivos e jardins dentro de ônibus velhos. Faz assembleias que deliberam sobre os assuntos da cidade. Um dos líderes é Plínio, professor da escola, filho de Carmelita e pai de Teresa. Tem Dona Domingas, ex-amante de Carmelita e médica que atende desde os que estão de ressaca aos que precisam de um lugar pra dormir depois da noitada. Tem Pacote, assassino de aluguel que também é Acácio, galã esperto e protetor. Tem trailer de prostitutos. Tem seu Damiano, conhecedor das plantas e seus poderes. Tem travesti como guarda da cidade. Tem capoeira e repentista. Tem Lunga, heroi(na) da esperança. E tem até museu.

Provavelmente, no mínimo todo nordestino conhece uma Bacurau. Bacurau existe. Bacurau está no mapa. Pelo menos estava, algum dia esteve…

A segunda visita é de um casal de forasteiros. Motoqueiros. Com roupas estrambólicas e aparentemente sofrendo no sol sertanejo, param na cidade e entram no bar de Luciene para se hidratar. Logo se percebe que o casal é sudestino, e segue carregando um diálogo prepotente. Luciene traduz que Bacurau é um pássaro, não passarinho. Seu filho explica que quem nasce lá é gente. Gente. Não é bicho, não é coisa e é igual às outras gentes de qualquer outro lugar que dá à luz gente. O casal recusa entrar para conhecer o museu. O repentista gaiato os segue com a singeleza da música e a inteligência da rima. “Não encosta na minha moto”, a forasteira reclama para Pacote. (Ué, gente não pode encostar?). Vão embora, matam dois homens e se encontram com seis gringos, donos do disco voador. No diálogo talvez mais citado do filme, em que o casal se diz diferente da gente do Nordeste, por vir de uma região mais rica e parecer mais com os estadunidenses, o filme traz a urgente reflexão decolonial. A existência brasileira orbita na colonialidade, sentida e vivida cotidianamente. É o brasileiro de sobrenome italiano, alemão, holandês que rejeita o refugiado senegalês. É a capital nordestina que quer parecer Miami. É o elevador de serviço. É a ‘empregada’ que dorme na casa da patroa. É a recusa identitária. É bater continência para a bandeira azul-vermelha-branca. É matar da própria gente – motivo que assusta os estadunidenses e leva o casal à morte como num paredão de fuzilamento. Ouvir dos estrangeiros que o casal não é branco, ressaltando o nariz e boca grossos da moça e descrevendo o moço como um ‘handsome latino’ pode soar como um baque. Afinal, no Brasil eles são brancos e ricos, estão no topo de qualquer pirâmide social. Mas, mesmo se o nariz não for, o sangue é latino. Se em outro lugar eles são rechaçados, ridicularizados pelo que são, é momento de lembrar que todos somos gente. De Bacurau a Blumenau. Já do Trópico de Câncer pra cima, é fácil deixar de ser gente e virar alvo de drone em forma de disco voador. O chamado decolonial está sendo feito. Que ouçam os cidadãos e os assistentes de desembargador. Pensar um Brasil descolonizado não é um grito meramente verde-amarelo. É reconhecer as forças identitárias regionais e diversificadas, respeitá-las e pensar o Brasil como fim em si mesmo. Por si mesmo (mesmo com vários Brasis inseridos, mas que não deixam de ser e estar Brasil).  

Descobre-se que Bacurau está sofrendo um ataque por um grupo de estadunidenses. O plano de destruição tem algumas etapas. A primeira delas é tirar a cidadela do mapa. O desespero de sair do mapa lembra o condicionamento da existência às convenções da civilização. Mapas. Documentos. Passaportes. Quando a prova da existência deixou de ser o ser? O segundo passo é o corte do sinal de celular (e o travamento da entrada para a cidade). Comunicação é união. E é socorro. A terceira etapa: desligamento da eletricidade. Como ensaia Saramago, a cegueira leva ao caos. No escuro, lanterna pode ser revólver. Guarda-chuva pode ser fuzil. E por último, a conclusão da destruição é o assassínio de todos os moradores. O plano de destruição de Bacurau é um modelo de ocupação estadunidense. Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria. E Bacurau. A desestabilização. O caos. E a morte. O grupo de ataque é comandado por alguém que está longe (e não se sabe exatamente quem é). Os participantes seguem regras e comandos estabelecidos pela pessoa do outro lado da chamada como se fossem personagens de um jogo. A narrativa parece absurda. Mas a guerra (principalmente a guerra dessa grande potência militar) hoje já é videogame. Guerra é drone, botão, tiro ao alvo. Realidade tão aumentada que é, de fato, real. Bacurau satiriza com destreza a obsessão estadunidense por armas. A obsessão por instrumentos de morte. A literal excitação em matar. A saída do tédio em atirar em algo (que não se difere de alguém). O discurso da justificação moral do ataque por um chamado divino. É por acaso que Julia em seu desejo de extravasar o ócio começa a atirar na escola de Bacurau? E o plano de destruição que já está em voga? Das guerras que não se chamam guerra. A necropolítica. A caça às bruxas. A caça aos negros. A caça aos pobres. O congelamento de gastos. O assolamento da infância. Os desmontes. O corte pela raiz.

Mas o Nordeste de Bacurau não é o da fome, sede e miséria. O alvo fácil. Bacurau é pássaro, não passarinho. Fica bravo quando mexem com ele. Vá na paz, pois Bacurau não está extinto, não lá. Sob efeito de um forte psicotrópico natural – a pitada de coragem -, Bacurau resiste. O sangue ferve quando seu Damiano, tal qual um índio, nu, regando suas plantas, exposto e vulnerável, atira de bacamarte levando seu caçador à morte. O alívio vem quando Lunga, líder de combate sem gênero definido, carrega a peixeira numa mão e as cabeças dos forasteiros em outra. O museu guardava as armas e registros dos guerreiros do sertão que dali saíram. Museu ignorado é a recusa da memória. Sem memória, sem história, o que é a Verdade? Na terra de museus queimados e verdades autointituladas, a resistência pode se perder na fumaça.

O chamado decolonial está sendo feito. Que ouçam os cidadãos e os assistentes de desembargador. Pensar um Brasil descolonizado não é um grito meramente verde-amarelo. É reconhecer as forças identitárias regionais e diversificadas, respeitá-las e pensar o Brasil como fim em si mesmo. Por si mesmo.

Bacurau é único e ao mesmo tempo é sobre tudo, extremamente simbólico, rico nos detalhes. Não se aprofunda em narrativas individuais. Mas consegue trazer os mais diversos temas que se entrelaçam e se inserem. É feito de alegorias teatrais e marcado nas trocas de cena bem visíveis. Bacurau foi muito falado como um filme sobre violência, da violência justificada. Antes da violência, Bacurau é sobre a existência. É sobre potência! Antes da morte que choca, Bacurau é sobre a vida que resiste. Antes de Tarantino, Bacurau é Cangaço. O fervilhar do sangue não é pela morte do outro. Até porque Bacurau tem piedade ao lembrar, quase citando Zeca Veloso, que todo homem já teve mãe. Existir não é fácil. Não agora e, pelo visto, não daqui a alguns anos. Mas existir no resistir é lindo. A beleza da alegria na pobreza, música na morte, flor na seca, capoeira no calor, curiosidade na tragédia, humor no inesperado. A epistemologia da vida.

Mariana Couto
Graduada em Relações Internacionais pela UNESP e mestranda no PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Dedica-se a pensar o mundo para além das fronteiras. Defende a arte, a vida e o ser plurais.

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