Ecossocialismo ou extinção: uma utopia por um outro mundo possível

Foto: Markus Spiske


A magnitude da emergência climática no planeta pode provocar sentimentos de desesperança e impotência para aqueles capazes de mobilizar somente seu empenho individual para a preservação do meio ambiente. O medo da extinção, no entanto, não deve gerar uma apatia generalizada; é preciso mobilizar coletivamente esse desamparo em prol de novas alternativas ecológicas. É inequívoco: uma resposta adequada para o problema que se espalha pelo globo depende de mudanças radicais nas estruturas de reprodução da vida. Nesse sentido, há uma demanda pela compreensão dos limites do meio ambiente diante do capitalismo, bem como a necessidade de indagar-se quanto à possibilidade de construir alternativas a partir de utopias que nos levem adiante.

Nas linhas abaixo, aproximamos duas alternativas para as relações entre a humanidade e a natureza: o ecossocialismo, derivado da crítica marxista ao modo capitalista de produção; e o “Bem Viver”, conjunto de experiências, tradições, e perspectivas derivadas da vivência ameríndia. Ambos se aproximam na crítica radical ao capitalismo e indicam caminhos a serem traçados e percorridos diante da devastação ambiental e da mudança climática caracterizam o presente.

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Eduardo Galeano

O surgimento de um outro mundo demanda a compreensão ampla e profunda das formas de reprodução da vida no capitalismo e a coordenação de esforços individuais e coletivos para sua supressão e a fabricação de um novo viver. A lógica de acumulação infindável do capital resulta em uma ação predatória sobre os recursos naturais. Assim, emerge a necessidade de coordenar ações que transcendam os empenhos pessoais em direção a respostas amplas e profundas para a devastação ambiental e para os efeitos da mudança climática já instalada. As decisões sensíveis a esse problema não podem estar reduzidas às elites que concentram o poder do Estado e sequer à classe capitalista, intimamente interessada na manutenção do modo de produção vigente e, portanto, no processo de esgotamento do ambiente. Para fazer emergir um modo de vida pautado pela preservação ecológica não é suficiente pensar alternativas dentro do capitalismo, como as “economias verdes” ou o “desenvolvimento sustentável”.

A pauta ecológica defronta-se com os interesses das indústrias envolvidas no extrativismo intensivo e no esgotamento do meio ambiente. Petrolíferas, mineradoras, siderúrgicas e metalúrgicas, latifundiárias do agronegócio são apenas alguns exemplos de companhias em setores dependentes da exploração de recursos naturais. A oposição às iniciativas e proposituras ecológicas é agravada pela multiplicação de personagens que se dedicam a espalhar desinformação, negando os efeitos da ação humana sobre a mudança climática. Essas ficções sobre o clima, o meio ambiente e a necessidade de preservá-lo ainda informam a decisão política em países como o Brasil e os Estados Unidos, apesar do clamor contrário.

Apesar da emergência climática demandar medidas imediatas, é preciso construí-las a partir da adesão dos grupos que são profundamente afetados pelos efeitos nocivos da devastação da natureza. Em uma lista não exaustiva recordam-se: povos originários, indígenas e aborígenes, ribeirinhos, camponeses e trabalhadores de lavouras, pequenos grupos dependentes do extrativismo, habitantes das regiões costeiras prestes a desaparecer, e tantos outros grupos à discussão sobre a preservação ambiental. As formas de conhecimento ancestrais podem contribuir para alternativas ecológicas concretas que miram novas relações entre sociedade e meio ambiente, além de outras possibilidades fora do paradigma de desenvolvimento tradicional. Não obstante, a classe trabalhadora em todo o globo também deve estar incluída na luta por uma nova civilização, visto que as alterações na economia vigente a afetariam.

As alternativas que se opõem às ideias de modernização e de progresso apresentadas pelo capitalismo dos países centrais se mostram a saída sustentável para a crise ambiental e para o iminente colapso climático contemporâneo. Esses novos caminhos apontam para a exploração não-exaustiva da terra e da natureza, visando o uso racional de tais recursos, de modo a respeitar a biodiversidade e a geografia locais. À vista disso, considerando a necessidade da construção de uma nova lógica de organização social que compreenda a complexidade das relações sociais e dos ecossistemas, os caminhos que se pretendem possíveis refletem uma perspectiva pós-colonial de desenvolvimento. Nessa perspectiva, refletir acerca dos saberes e práticas ancestrais presentes na cosmovisão dos povos originários é essencial para oferecer uma alternativa fora da lógica produtivista e consumista do mundo capitalista.

Uma outra civilização, outra economia e modo de vida, opostos à ideia de crescimento permanente, se encontram dentro do conceito de “Bem Viver”. Para Alberto Acosta, a proposta do “Bem Viver”, como conjunto de conhecimentos e práticas de resistência ao colonialismo, é a “(re)construção que passa por desarmar a meta universal do progresso em sua versão produtivista e do desenvolvimento enquanto direção única”. Nesse sentido, os princípios de reciprocidade, complementaridade, relacionalidade e correspondência uma civilização do Bem Viver são intrínsecos não somente às relações sociais e com a natureza, mas também à produção e circulação dentro dessas comunidades.

A necessidade de um novo sistema e de uma economia sustentável é o ponto de convergência entre o pensamento do Bem Viver e as ideias pautadas no ecossocialismo, a interpretação marxista acerca do Estado e da economia sob a lógica da ecologia, repensando formas de tecnologia, agricultura, energia e transporte sustentáveis que rompam com a lógica do capital e apontem para um outro mundo possível. Esse novo modo de viver estará fundamentado em princípios de solidariedade e igualdade, construindo um mundo em que há justiça social, e em que os indivíduos, livres de seus grilhões capitalistas, possam se dedicar à satisfação de suas necessidades materiais e afetivas.  Uma nova civilização, pautada no respeito à natureza, não se limita às trocas econômicas e deve lutar contra outras formas de opressão. O racismo, o machismo, outras formas de preconceito, a violência neocolonial ou imperial não passarão incólumes a construção desse novo modo de vida.

“O Bem Viver – enquanto filosofia de vida – é um projeto libertador e tolerante, sem preconceitos nem dogmas. Um projeto que, ao haver somado inúmeras histórias de luta, resistência e propostas de mudança, e ao nutrir-se de experiências existentes em muitas partes do planeta, coloca-se como ponto de partida para construir democraticamente sociedades democráticas”.

Alberto Acosta

Diante da gravidade da crise climática atual, é urgente um engajamento internacional acerca da devastação ambiental sob um viés que indique mudanças nos modos de produção e consumo da ordem vigente. Isto é, que seja contrário à lógica de acumulação do capital e ao consumismo intrínseco à sociedade contemporânea. O ecossocialismo, aliado aos princípios do Bem viver, apresentam uma saída tangível ao apontar a possibilidade de relações com a natureza que sejam pautadas na democracia substantiva, na solidariedade e na igualdade em uma civilização reorganizada.

Victória Balmat Silva Neto
Internacionalista em formação pela UNIFESP. Na luta pelo direito à educação e por um outro mundo possível. Ecofeminista que acredita nas flores vencendo o canhão.

Leonardo Dias
Graduado em Relações Internacionais pela UNESP, e mestrando pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Espera que amar e mudar as coisas continuem a nos interessar mais.

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