O que esperar de Joe Biden na presidência?

Jornal estadunidense com Joe Biden na primeira página (Foto: Jon Tyson em Unsplash)

Com a vitória de Joe Biden sobre Donald Trump, muito se tem especulado sobre como serão os próximos quatro anos sob o governo democrata. Em uma apuração muito apertada, a extrema-direita perde o seu principal nome no poder, mas ainda não foi totalmente derrotada, saindo enfraquecida do processo eleitoral, mas com uma base de apoio ainda muito consolidada em um cenário geral. A derrota de Trump é muito significativa, pois o mesmo representa tudo o que há de pior na política: racismo, machismo, LGBTfobia, xenofobia, etc. Porém, a eleição de Biden não resulta, necessariamente, em avanços significativos para a classe trabalhadora estadunidense, muito pelo contrário. Como afirma Branko Marcetic em seu artigo na revista Jacobin, Joe Biden é a face do neoliberalismo. Ex-vice-presidente de Obama, ele faz parte da maioria moderada que hoje compõe o Partido Democrata e regem a política de manutenção da ordem capitalista. Não à toa, ele é considerado o “candidato de Wall Street”, por ter recebido enormes doações do mercado financeiro para sua campanha (mais de US$ 50 milhões). E “quem paga a banda, escolhe a música”.

Em seus 36 anos como senador, Biden já votou diversas vezes em propostas que favoreciam grandes corporações e retiravam direitos dos trabalhadores norte-americanos (inclusive, o maior doador individual de Joe enquanto estava no Senado era uma grande empresa de cartão de crédito). Como vice-presidente, foi conivente com as medidas de austeridade de Obama, que injetava dinheiro público em grandes bancos e no mercado financeiro, ao mesmo tempo em que fazia corte bilionários nos gastos públicos, prejudicando milhões de servidores, além de uma política de imigração que deportou cerca de 2,5 milhões de pessoas. Aliás, essas políticas, de certa forma, contribuíram para a eleição de Donald Trump, que forjou sua imagem como um outsider que prometia “drenar o pântano de Washington”, como afirma o socialista Cornel West. A agenda Biden é aquilo que Nancy Fraser chama de “neoliberalismo progressista”, que é a junção de pautas como o feminismo, a luta antirracista e por direitos LGBTs, entre outras, com as pautas do mercado financeiro. No entanto, estar alinhado a pautas identitárias no programa não significa necessariamente que teremos uma agenda em defesa efetiva dessas pautas. Vale lembrar que durante o governo Obama a violência policial continuou alta e matou milhares de jovens negros. Kamala, vice de Biden, que se diz alinhada ao feminismo e à comunidade LGBT+, já afirmou que a descriminalização da prostituição é “completamente ridícula”, além de banir e processar sites que ofereciam serviços sexuais enquanto era procuradora-geral, prejudicando várias mulheres, a maioria negras e trans. Além disso, a mesma é envolvida em outras várias polemicas envolvendo a defesa da “Lei e Ordem”, que atinge em peso comunidades latinas, negras e periféricas no geral. Vale lembrar que Biden esteve ao lado de Obama nas quase 400 mil deportações anuais (não à toa, Trump teve um apoio expressivo do chamado “voto latino”). Inclusive, muitas organizações como o DSA, não endossaram a campanha Biden-Harris, e muitos democratas progressistas, como Bernie Sanders e AOC, declararam apoio crítico, simplesmente para derrotar Trump. 

A agenda Biden é aquilo que Nancy Fraser chama de “neoliberalismo progressista”, que é a junção de pautas como o feminismo, a luta antirracista e por direitos LGBTs, entre outras, com as pautas do mercado financeiro.

Ainda assim, Biden é considerado um aliado na defesa das liberdades individuais quando comparado a Donald Trump. O democrata é a favor do casamento igualitário, da promoção da igualdade racial e da legalização do aborto a nível federal. Apesar de ter se envolvido em algumas polêmicas ao longo de sua carreira política, como quando votou a favor da emenda Hyde em 1976, que limita o financiamento público na realização de abortos, prejudicando mulheres mais pobres, ou quando redigiu um projeto de lei em 1994 que aumentava o encarceramento nos EUA (que acabou atingindo em peso a população negra), ele ainda é visto como a melhor opção para assegurar os direitos básicos das minorias no país (o fato de ter escolhido uma mulher negra para compor a chapa o ajudou muito nisso, pela representatividade simbólica que carrega), que estavam ameaçados com Trump no poder. 

Porém, a defesa desses direitos não passa por uma reforma na estrutura do sistema econômico estadunidense que gere mais igualdade e inclusão social para esses grupos, muito pelo contrário. Apesar de trazer algumas propostas interessantes, como o aumento do salário mínimo para US$ 15 por hora e o aumento dos impostos para grandes empresas e super-ricos, Biden defende a autonomia do Federal Reserve, equivalente ao Banco Central, e promete um pacote de investimentos públicos para salvar o mercado financeiro, dando continuidade à agenda Obama nesse sentido. O democrata também é reticente à criação de um sistema de saúde público e universal (Medicare for All) e contra o pacote de medidas para levar os EUA a uma economia 100% verde, promovendo justiça social e ambiental conjuntamente (Green New Deal), medidas propostas pela ala mais à esquerda no Partido Democrata, e que foram levantadas por Bernie Sanders nas prévias no início do ano. 

No geral, podemos esperar de Joe Biden na presidência uma continuidade daquilo que foi (ou da maior parte do que foi) o governo Obama: um governo neoliberal, com um discurso mais unificador, garantindo as liberdades individuais.

Nas relações internacionais, podemos esperar um retorno ao pragmatismo e o fortalecimento das instituições internacionais, mas sem muito otimismo quando se trata das relações Norte-Sul. Apesar de ser um pouco mais moderado em seu discurso, Biden, assim como todos os outros presidentes que passaram pela Casa Branca, irá defender os interesses dos Estados Unidos a qualquer custo. Não podemos nos esquecer que, enquanto vice-presidente, ele apoiou a continuidade da guerra no Afeganistão e a participação dos EUA na guerra contra a Síria, e também a escandalosa espionagem ao governo Dilma. Ao contrário de Trump, o democrata tem uma visão favorável ao multilateralismo, e já afirmou que em sua presidência os Estados Unidos voltarão ao Acordo de Paris sobre mudança climática e não sairá da Organização Mundial da Saúde (OMS). Porém, os dois adversários concordam que a China é um inimigo a ser combatido, e que os EUA precisam retomar o controle e a influência no comércio internacional, que vem sendo perdido por conta do crescimento chinês. O multilateralismo e a “confiança” nas instituições internacionais de Biden, portanto, nada mais é do que a tática de buscar aliados para travar essa guerra comercial com Pequim.  

Para o Oriente Médio, Biden já sinalizou apoio ao Estado de Israel e seu poder militar, que há décadas ocupa o território da Palestina, segregando, prendendo e matando civis palestinos em um conflito infindável na região. Ele também defende a volta dos EUA ao Acordo Nuclear para barrar o crescente enriquecimento de urânio iraniano. Na América Latina, assim como Trump, o democrata se diz contra o governo Maduro na Venezuela, a quem chama de ditador e promete continuar as sanções econômicas, até que haja uma troca de regime no país. Para o Brasil, Biden irá de acordo com o vento. Há variados cenários para o futuro das relações entre nosso país e os Estados Unidos, mas uma coisa é certa: o governo Bolsonaro precisará rever muitos pontos da sua política externa e interna. 

No geral, podemos esperar de Joe Biden na presidência uma continuidade daquilo que foi (ou da maior parte do que foi) o governo Obama: um governo neoliberal, com um discurso mais unificador (“Serei um presidente para todos os americanos”, já disse ele), garantindo as liberdades individuais. Na política externa, o retorno da imagem (ou a tentativa de retorno) dos Estados Unidos como um líder no sistema internacional, prezando relações mais pragmáticas e fazendo a manutenção do imperialismo na periferia global. Algumas políticas são de governos, já outras são de Estado, e certamente o neoliberalismo imperialista estadunidense é um exemplo de política de Estado. 

Os progressistas, que expandiram suas cadeiras na Câmara dos Representantes ganham quatro anos mais tranquilos para se organizarem politicamente, mas perdem ainda mais espaço dentro do Partido Democrata, agora que um moderado foi eleito presidente. A esperança desse setor é de que haja uma maioria democrata no Senado, pois assim seria mais fácil conseguir a aprovação de algumas de suas propostas, tidas como mais “radicais”. Isso só será decidido em janeiro com as eleições para as duas vagas restantes na Georgia. Além disso, o trumpismo ainda não foi derrotado, como mostra o resultado apertado, onde em alguns estados Biden venceu com menos de 1% de vantagem. O Partido Democrata ganhou mais uma chance da população estadunidense, que já está esgotada de governos da ordem. Por isso, cabe a Biden e a cúpula democrata reconectar o partido a classe trabalhadora.  A pergunta é: Conseguirão? Ou melhor, tentarão? 

Emanuel Assis
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Paulista, pesquisa na área de política internacional, com foco em organizações de esquerda. Ativista.

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